Por que algumas pessoas não conseguem mudar? O que a neurociência descobriu

Este é um dos artigos da série Neurosensus – A neurociência aplicada ao desenvolvimento humano, um projeto dedicado a traduzir as principais descobertas da ciência sobre comportamento, mudança e construção do Eu do Futuro para terapeutas, profissionais do desenvolvimento humano e pessoas apaixonadas por compreender a mente.


Pessoas não conseguem mudar? Por quê?

Durante muito tempo, acreditamos que isso dependia apenas de força de vontade.

Se alguém não conseguia emagrecer, dizia-se que faltava disciplina. Se não prosperava financeiramente, era porque não se esforçava o suficiente. Se repetia relacionamentos ruins, provavelmente estava fazendo escolhas erradas.

Essa explicação parece lógica. O problema é que ela não explica por que tantas pessoas que não conseguem mudar continuam repetindo os mesmos padrões de comportamento durante anos, apesar de serem inteligentes, competentes e determinadas.

A neurociência começou a olhar para essa pergunta de outra forma.

Em vez de perguntar “por que essa pessoa não muda?”, pesquisadores passaram a perguntar: “o que o cérebro dessa pessoa está tentando nos dizer?”

Essa pequena mudança de perspectiva altera completamente a forma como entendemos o comportamento humano.


O cérebro prefere o conhecido ao desconhecido

Hoje sabemos que o cérebro não funciona apenas reagindo ao mundo. Na maior parte do tempo, ele está fazendo previsões. Antes mesmo de você agir, falar ou tomar uma decisão, seu cérebro já construiu uma expectativa sobre o que provavelmente vai acontecer. Essa capacidade é extraordinária porque economiza energia e nos ajuda a sobreviver.

Mas ela também tem um efeito colateral.

Quanto mais familiar é uma situação, mais confortável ela tende a parecer para o cérebro, mesmo quando não é boa para você.

É por isso que algumas pessoas permanecem em empregos que não gostam, insistem em relacionamentos que as machucam ou adiam projetos importantes durante anos. Não necessariamente porque desejam continuar ali, mas porque aquele cenário já faz parte do modelo que o cérebro aprendeu a reconhecer.

Isso significa que o cérebro prefere o sofrimento?

Não.

Ele prefere aquilo que consegue prever. E isso faz uma enorme diferença.

Sob essa perspectiva, muitas pessoas que não conseguem mudar não estão resistindo à transformação por escolha consciente. Na realidade, o cérebro ainda interpreta a nova possibilidade como algo imprevisível e, portanto, potencialmente arriscado.


A mudança depende de segurança, não apenas de motivação

Quando pensamos dessa maneira, a mudança deixa de ser uma questão de motivação e passa a ser uma questão de confiança.

Imagine que alguém lhe ofereça uma oportunidade extraordinária: um novo trabalho, um grande projeto ou uma mudança de vida. Se essa realidade estiver muito distante da forma como você se percebe hoje, o cérebro pode interpretá-la como algo incerto. E tudo o que parece incerto exige mais energia, mais atenção e mais adaptações.

É nesse ponto que muitas pessoas acreditam estar sabotando a si mesmas.

Talvez não estejam.

Talvez ainda não tenham aprendido a considerar aquele novo cenário como seguro.

Essa ideia conversa com uma das descobertas mais interessantes da neurociência contemporânea: nós não mudamos apenas porque entendemos algo racionalmente. Mudamos quando o cérebro começa a atualizar seus modelos internos — aquilo que acredita ser verdadeiro sobre si e sobre o mundo — e passa a enxergar a nova realidade como confiável.

Perceba a diferença.

Você pode desejar profundamente uma mudança.

Pode compreender exatamente o caminho.

Mas, se o cérebro continuar interpretando aquela nova realidade como distante, improvável ou ameaçadora, ele tenderá a conduzir você de volta ao que já conhece.

E não por maldade, nem por preguiça.

Mas porque essa é uma das estratégias que encontrou para preservar a sensação de estabilidade.

É justamente por isso que algumas mudanças acontecem de forma tão lenta. O cérebro precisa de tempo para transformar o desconhecido em familiar.


O que a neurociência descobriu sobre pessoas que não conseguem mudar

Esse talvez seja o maior equívoco do desenvolvimento humano nas últimas décadas: acreditar que basta convencer uma pessoa a mudar.

A ciência aponta para outra direção.

Mudanças profundas não acontecem apenas quando adquirimos conhecimento, mas quando o cérebro passa a considerar uma nova forma de viver como suficientemente segura para ser incorporada ao seu modelo interno do mundo.

Por isso, talvez a pergunta correta seja outra:

O que o cérebro precisa sentir para confiar em quem você pode se tornar?

É exatamente essa pergunta que deu origem ao Neurosensus.

Porque compreender o comportamento humano não começa tentando mudar as pessoas.

Começa entendendo por que algumas pessoas não conseguem mudar, mesmo quando desejam profundamente transformar a própria vida.

 


Pesquisadores que fundamentam este artigo:
  • Karl Friston — cérebro preditivo e erro de predição.
  • Lisa Feldman Barrett — emoções construídas e predições cerebrais.
  • Stephen Porges — segurança neurobiológica e neurocepção.

 

Nota ao leitor: Este artigo é uma síntese integrativa baseada em diferentes pesquisadores da neurociência e da psicologia contemporânea. Seu objetivo é aproximar descobertas científicas do desenvolvimento humano de forma acessível. Alguns conceitos apresentados resultam da integração entre diferentes modelos teóricos e representam uma proposta de organização conceitual adotada pelo Neurosensus, e não a reprodução literal da teoria de um único autor.

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Sobre Selva

Instrutora Comportamental e Neurocientista. Ensino como o cérebro preditivo molda sua realidade e como usar isso a seu favor.

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